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“O
Capital ”
(Le Capital),
de Constantin Costa-Gavras
(2011)
Eixo
Temático
A
partir da crise estrutural do capital em meados da década
de 1970 desenvolveu-se um complexo reestruturativo do capitalismo
mundial caracterizado pelas politicas neoliberais que impulsionam
o desenvolvimento da financeirização da riqueza
capitalista. No bojo do capitalismo dourado do pos-guerra constituiram
contradições orgânicas na dinâmica do
capital que, com a grande crise da década de 1970, iriam
contribuir para a afirmação do capital financeiro
como fração predominante do capitalismo global.
A hipertrofia do capital ficticio levou a constituição
do capitalismo das bolhas financeiras, cuja dinâmica de
acumulação volátil e instável imprimiu
sua marca na conjuntura do sistema mundial do capital nos "trinta
anos perversos" (1980-2010). Com o capitalismo predominantemente
financeirizado o dinheiro afirmou-se como capital-dinheiro, expondo
o capital em geral em sua face mais fetichizada. Ao debilitar
o poder de barganha do trabalho, o capital-dinheiro como capital
ficticio fez o mundo a sua imagem e semelhança, abrindo
um temporalidade histórica de barbarie social caracterizada,
por um lado, pela crise e irracionalidade social, e por outro
lado, por uma intensa concorrencia entre as frações
internas do capital pelo dominio do globo.
Temas-chave:
crise e capitalismo global; neoliberalismo e financeirização
da riqueza capitalista; capital financeiro e barbarie social.
Filmes
relacionados: "Wall-Street - Poder e Cobiça"/"Wall
Street - O dinheiro nunca dorme" de Oliver Stone; "Margin
Call", de ; "A Grande Virada" de ;
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Constantin
Costa-Gavras é o cineasta do poder. Nos filmes de Costa-Gavras,
o problema do poder do capital se coloca de maneira incisiva e obsessiva,
seja como poder político, como nos filmes “Z” (1968)
– um clássico do cinema político, ou ainda “Estado
do Sítio” (1970), “A confissão” (1972)
ou mesmo “Amém” (2002); seja como poder econômico,
com o seu mais recente filme: “O capital” (2012). Mas, a
obsessão de Costa-Gavras em dissecar o poder o leva a tratar
também do drama da proletariedade, como ocorreu, por exemplo,
no filme “Éden à Oeste” (2009), que conta
a história de Elias, um jovem imigrante que chega a Paris para
tentar ganhar o pão nosso de cada dia. Deste modo, existe uma
ligação umbilical entre poder (político ou econômico)
e proletariedade, isto é, o drama social de homens e mulheres
exploradas e espoliadas de sua humanidade pelo movimento do capital
como metabolismo social estranhado. Portanto, por trás da sanha
do poder do Estado político, com suas conspirações
e ditaduras militares, existe o drama humano pressuposto das vitimas
do poder do capital, como Charlie Horman em “O desaparecido”
(1982), Sam Baily em “O Quarto Poder” (1997) ou mesmo Kurt
Gerstein e Riccardo Fontana em “Amém” (2002). Na
verdade, poder e riqueza contem em si, como pólo antitético,
alienação e miséria humana. Poder/riqueza e alienação/miséria
humana, dois pólos antitéticos, mas indissociáveis,
no mundo social do capital, estão presentes na longa filmografia
de Costa-Gavras.
Por outro lado, Costa-Gavras expõe homens obcecados pelo poder
e, ao mesmo tempo, homens transtornados pela perda do poder. Por exemplo,
no filme “O Corte” (2005), Bruno Davert é um executivo-chefe
desempregado, homem de poder, que, ao cair em desgraça, demitido
pela lógica reestruturativa do capital, decide matar seus concorrentes.
O poder (e o sujeito do poder) é tão irracional e perverso,
quanto lógico-racional. Bruno Davert é a própria
expressão da razão instrumental que calcula com frieza
e crueldade seus atos de barbárie. O poder, como o Mefistófeles
do “Fausto” (de Goethe), escraviza docemente quem o possui.
Mas não se trata de mera escravidão, mas sim, de gozo
perverso. O homem burguês (como o Fausto de Goethe) é um
homem fascinado pelo poder. Ele deseja (e goza) com o poder: o poder
social estranhado (e fetichizado) que o desefetiva como ser humano-genérico.
Na verdade, os pólos antitéticos (poder/riqueza-alienação/miséria
humana) se confundem, pois a alienação do homem do seu
poder social – mesmo que o poder social assuma a forma histórica
de poder social estranhado do capital - o faz sentir-se alienado e miserável,
caindo na loucura de resgatar o poder perdido por métodos cruéis
e irracionais (como é o caso de Bruno Davert em “O Corte”).
Talvez Costa-Gavras queira nos dizer que existe uma racionalidade perversa
na barbárie social. Portanto, o cineasta franco-grego é
o cineasta da modernidade tardia do capital em suas dimensões
irremediavelmente contraditórias, sendo, por exemplo, da mesma
estirpe de um Stanley Kubrick, embora o cineasta norte-americano tenha
sido superior no plano da plasticidade estética.
O filme “O Capital” (2012) não foge a regra da filmografia
de Costa-Gavras. Ele expõe a anatomia do poder econômico-financeiro
do capital. Produzido no clima da crise européia (2010-2011)
com sua política de austeridade neoliberal em prol dos interesses
do capital financeiro, Costa-Gavras retratou no filme as intrigas do
mundo das finanças globais. O banqueiro Marc Tourneuil, escritor
e executivo financeiro do banco mais poderoso da Europa (o Phenix, com
cerca de 100.407 funcionários em 49 países). Marc Tourneuil
ascende à presidência do banco quando seu titular (Jack
Marmende) adoece devido a um câncer de testículo.
Logo no começo do filme, Costa-Gavras nos brinda com figuras
metafóricas que permeiam a narrativa do filme. Primeiro, a cena
inicial de Jack Marmande jogando golfe. A câmera focaliza o banqueiro
arremessando, com uma tacada, a bola de golfe e logo a seguir cai paralisado
no chão. A bola de golfe é a figura do mundo manipulado
pelas personas do capital financeiro. Não é a toa que
o filme começa com um jogo. Na verdade, a lógica do capitalismo-cassino,
o capitalismo global predominantemente financeirizado. é a lógica
do jogo.
O câncer nos testículos do presidente do banco Phenix é
a própria metáfora da esterilidade do capitalismo global.
A perda da virilidade do banqueiro é a metáfora da crise
do provedor de riqueza fictícia, incapaz de realizar a reprodução
hermafrodita da riqueza abstrata. Jack Marmande é o financista
eunuco, que, com o câncer nos testículos, tornou-se literalmente
incapaz de procriar. É o homem-metáfora da mundialização
do capital nos seus limites derradeiros. Mas “O Capital”,
de Costa-Gavras não é apenas um filme de homens estéreis,
burgueses eunucos, guardiões do capital fictício; mas
é também um filme sobre relações afetivas
estéreis que nunca se consumam, pois falta às singularidades
humanas a entrega de si. Por exemplo, Marc Tourneuil, o banqueiro todo-poderoso
do Phenix, e a jovem Nassim, top model da high society
endinheirada, têm uma relação afetiva estéril.
A mulher-fetiche que seduz Marc Tourneuil, sempre lhe escapa, nunca
se entregando sexualmente a ele. Ao mesmo tempo, Nassim espolia Marc
Tourneuil, pedindo-lhe empréstimos milionários (apenas
no final do filme, Marc Tourneuil consegue estuprá-la no interior
de uma imensa limusine). Mas, outras metáforas permeiam o filme:
o nome do mais poderoso banco europeu (Phenix) é a figura mitológica
que renasce das cinzas. Renascer das cinzas é o que o sistema
mundial do capital fictício tem feito nas últimas décadas
de crises financeiras (1987, 1996, 2000 e 2008). No “trinta anos
perversos” de capitalismo global, o capital financeiro sempre
renasceu das cinzas provocadas pelo estouro das bolhas especulativas.
Ao constituir-se como regime institucional internacional que lhe dá
suporte, as finanças mundializadas criaram raízes na própria
ordem sociometabolica do capital. Portanto, a financeirização
da riqueza capitalista não é uma mera deformação
da lógica da economia capitalista, como Keynes imaginou na década
de 1930, capaz de extirpá-la por meio de políticas econômicas
conduzidas pelo Estado nacional, mas sim, tornou-se traço crucial
do próprio organismo metabólico da produção
do capital nas condições de sua crise estrutural.
O filme “O Capital”, de Costa-Gavras nos mostra a rápida
ascensão de Marc Tourneuil, homens de letras e homem de confiança
do banqueiro presidente do banco Phenix, que o considera “um homem
jovem e talentoso, atributos que não são incompatíveis”.
Ao ascender no circulo de poder das finanças, Marc Tourneuil
torna-se alvo de intrigas palacianas dos membros do conselho administrativo
sob o comando de De Suze, acionista majoritário, que aguarda
o momento certo para destituí-lo. Mas Tourneuil, desde o começo,
tem consciência das conspirações palacianas e contrata
um investigador privado para acompanhar seus desafetos.
Ele assume o cargo de presidente do Phenix disposto a lutar pelo poder,
custe o que custar. Como jovem ambicioso no mundo das grandes finanças,
Tourneuil possui um senso pragmático (e maquiavélico,
no sentido pleno da palavra) na disputa pelo poder. Mas a posse do poder
significa para Tourneuil, obter respeito. Num certo momento do filme,
Diane, esposa de Marc, perguntou a ele: “O que você quer?”.
Ele diz: “Dinheiro. Para ser respeitado”. Noutro momento,
dialogando com a mulher observa: “Para você, o dinheiro
é passado. Para mim, é o futuro. Menor o salário.
Menor o respeito”. No mundo do capital, dinheiro é Poder.
Dinheiro é Respeito.
O filme de Costa-Gavras contém pérolas da filosofia do
dinheiro como capital. Não se trata apenas do dinheiro como meio
de circulação ou meio de pagamento, mas sim, dinheiro
como capital, isto é, valor que se auto-valoriza. Existe uma
mudança ontológica na forma de ser-dinheiro. Portanto,
não se trata do mero dinheiro, mas sim do dinheiro como capital:
dinheiro que faz mais dinheiro, dinheiro como capital fictício
que assume as mais diversas formas de especulação: moedas,
commodities, títulos públicos, ações, papéis
e obras de arte. Um detalhe: no filme vemos a presença de obras
de arte valiosas pintadas por Matisse e Modigliani nas salas luxuosas
dos escritórios dos bancos e nos iates de luxos. Os objetos da
arte clássica adquiriram valor de troca. Enfim, sob o capitalismo
global financeirizado, o dinheiro como capital que se autovaloriza,
desceu à Terra apropriando-se das objetivações
supremas do espírito humano, convertendo-as em mero valor de
troca sem lastro com o valor-trabalho. O capital-dinheiro é o
fetiche em sua forma luminosa
Por outro lado, por trás das intriga palacianas do banco Phenix,
temos as disputas entre frações do capital financeiro
internacional (europeus versus norte-americanos, ou ainda, franceses
versus alemães). As disputas territoriais que levaram governos
a muitas guerras no passado, tornaram-se hoje disputas financeiras e
comerciais por territórios intangíveis do poder financeiro
global. Trata-se de uma disputa silenciosa e voraz nos bastidores dos
circuitos financeiros globais, tão intransparente quanto a natureza
do capital-dinheiro.
O mais poderoso banco europeu (o Phenix) tornou-se alvo de ambição
de um fundo especulativo norte-americano de espírito predador,
que quer adquiri-lo para retirar-lhe a personalidade francesa (a França
é o pais das regulamentações sociais que incomoda
o capital especulativo-parasitário). Como diz Marc: “Gostam
de Paris, mas não da França. Muitas leis sociais”.
O fundo de investimentos norte-americano, acionista do Phenix, representado
pelo mega-especulador Dittmar Rigule, quer torná-lo o maior banco
do mundo, um banco de predadores com o espírito do “capitalismo
de cowboy”, convertendo, deste modo, o Phenix num banco à
la americano. De repente, Marc Tourneuil encontra-se no fogo cruzado
destes interesses de poder do capital financeiro que aparece como o
movimento dos múltiplos capitais disputando a hegemonia da ordem
financeira internacional.
O jogo de poder do fundo especulativo norte-americano contra Marc Tourneuil
é deveras sinuoso. Falsidade, desconfiança e hipocrisia
são as marcas do capitalismo farsesco. Primeiro, os adversários
de Marc Tourneuil buscam desprestigia-lo, obrigando-lhe a fazer um downsizing
no Phenix; como diz o presidente do Phenix, um downsizing que
não pareça corte de pessoal (sic). Eis a dimensão
farsesca do capitalismo financeirizado. Ao obrigar Marc Tourneuil a
fazer um corte de pessoal, seus desafetos queriam enfraquecê-lo
politicamente, tornando-o vulnerável a ação dos
especuladores. Mas Marc Tourneuil consegue driblá-los, adotando
uma curiosa tática maoísta. Como sugeriu Diane, mulher
de Marc Tourneuil, o comunista chinês Mao Tse-tung usou as bases
para eliminar seus rivais. Finalmente, o presidente do Phenix tornou
a operação de downsizing um sucesso de mercado.
Deste modo, o tiro dos seus rivais saiu pela culatra.
Por outro lado, o especulador Dittmar Rigule busca convencer Marc Tourneuil
a comprar o banco Mitzuko, banco japonês falido, visando, deste
modo, desvalorizar as ações do Phenix, levando o fundo
especulativo norte-americano a adquirir o banco francês, demitindo
Tourneil e empossando outro presidente. É a jogada decisiva da
luta entre frações do capital financeiro (a fração
norte-americana e a fração européia francesa).
Na medida em que o capital financeiro se fortaleceu nas últimas
décadas de capitalismo global, o sistema mundial do capital se
auto-dilacera em contradições não-antagônicas
internas de amplas proporções. Parafraseando Marx e Engels,
poderíamos dizer que, ao criar o mundo à sua imagem e
semelhança, o capital financeiro criou civilização
em demasia, meios de subsistência em demasia, indústria
em demasia, comércio em demasia, capital fictício em demasia.
O mundo do capital tornou-se estreito demais para abranger toda a riqueza
que criou.
Portanto, no filme “O capital”, Costa-Gavras salientou a
disputa entre frações européia e frações
norte-americanas do capital financeiro. Estamos diante das lutas no
interior do próprio capital financeiro que se auto-dilacera para
concentrar-se cada vez mais. Por exemplo, sindicatos, por exemplo, não
aparecem como protogonistas do filme. Como elemento antípoda
antagônico ao capital, o trabalho organizado fragilizou-se pelo
movimento do capitalismo global. Portanto, uma das dimensões
da crise do capital é contraditoriamente, a fragilização
de seu contraponto antagônico: o trabalho organizado hoje incapaz
de constituir obstáculos à sanha devoradora do movimento
do capital. Apenas num momento do filme, quando ocorre o downsizing,
percebe-se a referencia aos sindicatos e governos, meros coadjuvantes
do poder do capital no plano mundial. Num certo momento do filme, um
desempregado aparece querendo falar com Tourneuil; mas ele afasta-se,
embora no intimo, Marc Tourneuil queira fazer algo pelo miserável
- ele fantasia um deposito na conta do desempregado.
Deste modo, o jogo pesado no filme “O capital” ocorre entre
posições no interior do próprio capital financeiro,
deixando-se de lado as instituições de regulação
do sistema – os sindicatos e governos subsumidos à lógica
estrutural do Estado neoliberal. Eis o verdadeiro sintoma da crise estrutural
do capital: o capital em geral sob a forma fictícia encontra
seu limite ao destacar-se em demasia do trabalho organizado e dos governos
nacionais, driblando o controle dos fluxos financeiros globais (como
diz o diretor-executivo do Phenix em Londres, num diálogo com
Marc Tourneiul, utiliza-se “robôs financeiros sem intervenção
humana à margem da regulamentação” para driblar
o controle dos fluxos financeiros globais).
No mundo do capital, impõe-se a lei da selva. O thriller de Costa-Gavras
é um jogo de intrigas na esfera do poder. São poucos os
momentos em que Marc Tourneuil desce à Terra: ele se locomove
em jatinhos ou mega limusines que o projetam noutra territorialidade
social. O mundo social de Marc Tourneuil não é efetivamente
o mundo dos homens. No filme, muitos contatos entre as pessoas ocorrem
por meio de telas digitais, sendo tão virtuais quanto o próprio
dinheiro. A presença da virtualidade no filme é freqüente.
Por exemplo, nas comunicações à distancia e operações
de negócios utilizando smarthopnes. As novas tecnologias digitais
aparecem inclusive nos games que fascinam as crianças: o filho
de Marc, que aparece apenas uma vez, jogando videogame, sendo obrigado
pelo pai a falar inglês; ou ainda, as crianças na casa
dos pais de Marc Tourneuil no interior da França, fascinadas
diante dos gadgets eletrônicos presenteados pelo banqueiro. Enfim,
telas digitais constituem cada vez mais a sociabilidade virtual do capitalismo
fictício.
O filme de Costa-Gavras expõe, com sutileza, o fetichismo das
relações humanas instrumentais organizadas como um jogo
que visa manter posições de poder e fazer cumprir o espírito
da financeirização. Com exceção dos personagens
subalternos – Diane Tourneuil, os familiares e empregados do banco,
por exemplo - todos são conscientemente devotos fieis do Deus-Capital.
O próprio Marc Tourneuil, entrega-se de corpo e alma ao jogo
das finanças mundializadas, tornando-se narrador da lógica
do dinheiro como capital. Diz Marc Tourneul:“O dinheiro é
um cão que não pede carinho; lance a bola cada vez mais
longe e ele a traz, indefinidamente.” Ou ainda: “Dizem que
o dinheiro é um instrumento. Estão errados. O dinheiro
é o amo. Quanto melhor o serve, melhor ele te trata.”
Na verdade, o poder persegue sua manutenção; como gozo
perverso, o poder se auto-reproduz vorazmente. Marc Tourneuil não
abdica do jogo do poder – ele joga vorazmente, até o final
do filme. Eis uma qualidade ontológica do poder. O poder não
renuncia, mas pelo contrario tenta se manter. É o que faz Marc
Tourneuil, personagem central visceralmente contraditório. Como
homem burguês, ele é a própria contradição
viva que, as vezes, divaga e imagina confrontar o ethos do capital,
insurgindo-se – pelo menos, no plano da fantasia - contra a mediocridade
do mundo burguês. Este é um traço do homem burguês
como homem esquizóide, homem dividido entre a civilização
e a barbárie do capital. Como disse Marx e Engels: “As
condições da sociedade burguesa são estreitas demais
para abranger toda a riqueza que criou”. Entretanto, a riqueza
humana de Marc Torneuil permanece, como ideal, no plano da fantasia:
ele aparece como incapaz de confrontar efetivamente a lógica
do capital. A esquizofrenia de Marc Tourneuil ocorre nos momentos de
lapso que ele imagina agir de outro modo autenticamente pessoal (por
exemplo, expulsando os sogros ávidos em saber do salário
dele, ou ainda dando ajuda para o desempregado Elias Gigou, “sem
trabalho há três meses”; ou demitindo a filha medíocre
do presidente do banco).
Marc Tourneuil desce à Terra dos homens comuns quando visita
os pais e recebe a critica ácida do tio que questiona a lógica
das finanças globais. A cena do almoço em família
é um verdadeiro interrogatório do presidente do banco
Phenix. Começa com a pergunta singela de Pierre, parente de Marc
Tourneuil: “Se eu tiver dinheiro, em que devo investi-lo?”.
Entretanto, Marc se recusa a ser consultor financeiro da família.
Responde: “Na sua família, Pierre. E o principal, evite
os bancos. Jogam com teu dinheiro, até que te deixam sem nada.”
A seguir perguntam a Marc: “Quando alguém ganha 150 mil
por ano, em que ele gasta?”. O banqueiro diz: “Eu também
me pergunto. Por sorte, Diane me ajuda”. E observa: “O que
me tranqüiliza é que os jogadores de futebol ganham 5 vezes
mais e gastam tudo.” As perguntas à mesa se dirigem também
ao pai de Marc: “Como é ter um filho tão importante?”.
Ele responde: “Só sei que o vejo cada vez menos”.
Diane, esposa de Marc, não perde a oportunidade de dizer: “Também
o vejo cada vez menos. E tenho que ir a jantares chatos onde só
se fala em dinheiro”. A relação de Marc com a esposa
é marcada por afeto e carinho e ao mesmo tempo, distanciamento
- não poderia ser diferente: o tempo dele é dedicado ao
dinheiro-fetiche, faltando-lhe tempo para a família - em nenhum
momento aparece Marc Tourneuil com a família. O tempo de vida
do homem burguês é um tempo cativo.
Mas o interrogatório em família adquire uma nova dimensão
quando o tio de Marc intervém. As perguntas pessoais são
substituídas por inquirições políticas.
Não se fazem meras pergunta, mas acusações políticas
contra aquilo que Marc Tourneuil representa: o capital financeiro. Coloca-se
o problema da responsabilidade pessoal diante das atrocidades financeiras
cometidas pelo sistema das finanças mundializadas: “Seu
banco obtém benefícios e você demite as pessoas.
Como lida com isso?”. Marc Tourneuil não foge à
pergunta? Diz: “Muito mal, tio. O Banco estava afundando. Tive
que salvá-lo. E tive que despedir para salvar 100 mil empregos.”
O tio indigna-se com a resposta burocrática de Marc: “Não
me venha com isso. Cansei de ouvir isso. Sangrou as pessoas três
vezes: (1) a bolsa quer sangue. Você realoca, funcionários
perdem emprego; (2) você os sangra como clientes; (3) pressiona
os Estados endividados e quem paga é o cidadão. E como
o funcionário é cliente e cidadão, você o
fode três vezes. O dinheiro contamina tudo.”.
Finalmente, o tio comunista provoca o sobrinho banqueiro com a pergunta:
“Por que destroem a sociedade para pagar a dívida?”.
O presidente do Phenix concorda - em parte - com as criticas feitas
pelo tio (adiante, ele observaria para o pai: “Ele tem alguma
razão”). Entretanto, Marc resigna-se e apresenta a sua
racionalidade das coisas. Provocativamente, diz que o capital financeiro
realiza às avessas o sonho dos comunistas que almejavam a internacionalização
do trabalho. Por isso diz cinicamente para o tio que, “cumprimos
seu sonho de juventude”. E salienta: “Vocês não
queriam a internacionalização? Aqui está. O dinheiro
não tem fronteiras, o trabalho, tampouco...Olhe, vê este
brinquedo? Comprei em Londres. É alemão. Feito na Indonésia,
por crianças. Acaso o mundo que você sonhava iria alimentar
essas crianças? Nossa internacionalização o fará.
Também trabalho para isso. O dinheiro nunca dorme. É como
leite no fogo. Se não vigia, evapora e é preciso demitir”.
Enfim, Marc Tourneuil vive num mundo de racionalidades instrumentais
em disputa. Por um lado, as racionalidades do capital e do trabalho;
e por outro lado, as racionalidades da concorrência entre os múltiplos
capitais – o que está posto no filme “O capital”.
Ao sair, o pai de Marc recomenda ao filho cuidado com os americanos:
“Eles só pensam em dinheiro”. Marc retruca: “São
como nós, homens de negócio”. E conclui: “Como
disse um banqueiro: Faço o trabalho de Deus.”
O homem burguês cultiva prazeres e fantasias. Marc Tourneuil recusa
as orgias sexuais, mas fascina-se com uma top model: Nassim.
Trata-se de fantasia à primeira vista. Na verdade, Marc Tourneuil
vive imerso em fantasias. Noutro momento, salientamos o papel de mulher-fetiche
de Nassim, pura fantasia estéril como o capital fictício.
A relação de Marc com Nassim é deveras estranha:
ele deixa-se levar pelo fascínio que tem por ela e deixa-se inclusive
ser explorado por ela ao pagar suas dividas. Mas nos momentos que se
encontra com ela, ela sempre foge de relações intimas.
Na boate, Nassim tenta dopá-lo; quer mantê-lo próximo
e distante ao mesmo tempo, num jogo de manipulação. Alias,
como salientamos acima, no filme “O capital”, de Costa-Gavras,
tudo é jogo. As relações pessoais são meras
abstrações, como o próprio capital-dinheiro, com
a dimensão fictícia (e fantasiosa) compondo as interações
pessoais.
É importante salientar que o filme de Costa-Gavras expõe,
nas entrelinhas, o problema do precariado, isto é, o problema
da juventude imersa numa futuridade precária. O capital financeiro,
fração perversa do capital em geral, movimento abstrato
supremo do capital-dinheiro, hostiliza a juventude pois ela representa
efetivamente o futuro. O capital financeiro corroi a futuridade. A discriminação
com a juventude aparece em alguns detalhes do filme “O capital”.
Num certo momento, um importante acionista do Phenix, ao saber da indicação
de Marc Tourneuil para presidente do banco, observa: “Corremos
um risco nomeando alguém tão jovem”. Mas na reunião
de posse do novo presidente do Phenix, Jack Marmande salientou que Marc
Tourneuil é “um homem jovem e talentoso, atributos que
não são incompatíveis”. Enfim, apesar de
ser jovens, pode-se ser talentoso.
Noutro
momento, por exemplo, a discriminação do capitalismo global
predominantemente financeirizado contra os jovens aparece num diálogo
entre Marc Tourneuil e Nassim na boate. A top model observa
um casal de velhos especuladores endinheirados divertindo-se na boate.
Diz ela: “Quando for velha, gostaria de ser como eles”.
Marc, um pouco dopado, retruca veementemente: “Como eles, não.
Não quero terminar assim. Engordam seus fundos de pensão
espremendo os mais jovens. São uns mercadores de escravos.”
E arremata: “Os velhos controlam tudo. Me obrigam a demitir as
pessoas e a sangrar o banco”. É o que explica o crescimento
do precariado nos países capitalistas mais desenvolvidos.
Entretanto, o filme indica que o capital financeiro considera como problemáticos
não apenas os jovens, mas também os velhos, sustentados
pelas pensões da previdência social deficitária.
Os velhos constituem uma nova camada do proletariado precário
do capitalismo global do século XXI. Como observou o diretor-executivo
do Phenix na Inglaterra: “O problema do Japão, que logo
será o nosso, são os velhos”. Enfim, a fratura da
futuridade provocada pelo capitalismo global financeirizado atinge as
duas etapas da vida humana alongada no século XXI: juventude
– trajetória alongada pela precariedade de transição
para a vida adulta; e velhice, alongada pelo aumento da expectativa
de vida no século XXI.
Giovanni Alves (2013)
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